Você precisa saber que sua vida não acaba depois do vestibular


Uma ilustração de uma menina segurando um caderno. Na imagem está escrito "sua nota não define quem você é".

Que estressante é fazer o ENEM ou qualquer vestibular! Ainda mais em meio à pandemia! Pensando nisso, publicamos aqui um relato que pode fazer seu coração de pré-vestibulando se acalmar um pouco, te lembrando que sua vida continua, sim, depois da prova.


O relato é o texto de introdução da antologia A matemática das relações humanas, lançada em 2018. Vanessa S. Marine, editora e CEO da Duplo Sentido Editorial, idealizou esse livro com a intenção de ser um conforto àqueles que estão estressados com o ano do vestibular. “Quando idealizei essa antologia de contos, meu objetivo era que ela se tornasse o tipo de livro que eu, aos 17 anos com os cabelos caindo aos montes por tanta tristeza, precisava ter, mas infelizmente não tive”, conta.


No texto a seguir, Vanessa compartilha sua experiência estressante como pré-vestibulanda. Decidimos publicá-lo integralmente aqui no blog a fim de confortar a todos que estão passando por essa fase.


Foto do livro "A matemática das relações humanas"


Introdução de A matemática das relações humanas

Texto de Vanessa S. Marine, de 2018



O ano do vestibular foi um dos mais importantes da minha vida. Me lembro muito bem do dia em que me matriculei num cursinho pré-vestibular da minha cidade e voltei para casa com meia dúzia de livros nas mãos. Eu estava tão animada! Não só pela possibilidade de ter um ensino bom que me capacitasse a conseguir entrar em uma boa universidade, mas também pelo fato de conhecer pessoas novas e ter um preview do que seria a vida universitária.


Eu decidi que queria fazer Letras muito cedo, aos 14 anos. Uma amiga da minha mãe tinha acabado de dar início ao curso e me contou toda animada sobre a grade curricular. Eu, que amava ler qualquer tipo de livro que me botassem na mão, fiquei encantada com a ideia de poder ganhar dinheiro lendo livros.


É de conhecimento geral que Letras é um curso que tem muitas vagas até mesmo nas grandes e conceituadas universidades do país, além da nota de corte ser baixa. Por isso muitos pensam que os vestibulandos que almejam esse curso não precisam se esforçar muito. Ledo engano.


Quando entrei no cursinho pré-vestibular, e souberam qual curso eu queria fazer, imediatamente me perguntaram “Por que você está aqui, então? Para Letras não precisa estudar tanto!”. Repito: ledo engano.


Eu tinha colocado na minha cabeça que queria estudar onde o meu curso fosse melhor classificado (dentro do meu estado, claro, já que eu não teria condições de sair da casa dos meus pais). Como sou de São Paulo, as universidades que têm o melhor conceito em Letras são PUC (Pontifícia Universidade Católica), USP (Universidade de São Paulo) e a Universidade Presbiteriana Mackenzie. PUC e Mackenzie são faculdades particulares. Era inviável para os meus pais pagarem pelo meu ensino superior, quiçá eu pagar sozinha. O que me “restou”, então, foi a USP, uma das universidades mais concorridas do país (não necessariamente no curso de Letras, como já disse, mas ainda assim, bem concorrida), o que significava que eu teria de me esforçar.


Foto do sumário do livro "A matemática das relações humanas". Em volta do livro há canetas, lápis e lapiseiras.

Passei meu último ano do Ensino Médio me dividindo entre a escola e o cursinho. Eu sempre estudei em escola pública, então, para mim, entrar no ritmo pré-vestibular demorou um pouco. Eu não entendia metade do que os professores falavam (por mais que eles fossem engraçadinhos) e as apostilas pareciam terem sido escritas em aramaico.


Eu passava a manhã inteira tendo aula na escola, almoçava, e ia para o cursinho para ter mais aulas. À noite eu tentava “relaxar” vendo filmes, séries ou documentários que os professores indicavam. Quando eu pegava ônibus, tentava resolver exercícios das apostilas ou lia os livros da lista de obras literárias requeridas pela Fuvest (minha única parte favorita nos estudos, aliás). Aos fins de semana, eu fazia simulados em todas as instituições que aparecessem na minha frente. Em resumo: eu me dedicava bastante, assim como a maioria dos outros alunos.


Quando comparei as minhas notas em simulados de provas e redações do começo com as do final do ano, constatei que havia progredido bastante, e que, portanto, minhas chances de entrar na faculdade estavam quase que garantidas.


Com a chegada do final do ano, prestei o ENEM e a Fuvest, sendo que até então a nota do ENEM não me valeria muito já que a USP não a adotaria naquele ano — mas fiz a prova de qualquer forma a fim de treinar para o vestibular que mais me interessava. Na saída da primeira fase da Fuvest, meu pai questionou “E aí, filha? O que achou?”, ao que eu respondi “Acho que passei!”.

E eu tinha passado mesmo.


Quando saiu a lista de convocados para a segunda fase da Fuvest, meu nome estava lá. Tempo depois, lá fui eu fazer a segunda prova. Quando terminei e saí do local, meu pai me perguntou de novo “E aí, filha?”, e eu respondi “Tenho quase certeza que passei!”.


Mas não passei.


Na primeira chamada da USP meu nome não estava lá. Nem na segunda, nem na terceira, nem na quarta. Pois é, eu não consegui nota suficiente em um dos cursos menos concorridos do país, com mais vagas e nota de corte baixíssima, mesmo estudando muito e fazendo cursinho.


Eu não sabia onde enfiar a minha cara. Meus pais, que mal terminaram a escola, não entendiam como eu não tinha sido aprovada, e aí começaram as acusações: “Você não se esforçou o suficiente” acompanhada daquela cara de decepção que rasga o coração de qualquer filho.


Eu mesma não entendia o porquê de não ter alcançado a nota suficiente.


Eu ia bem nos simulados, era boa em redação... Não a melhor, mas era boa. Eu me senti muito triste não só pela “humilhação” de não passar num curso pouco concorrido, mas por não ter passado num curso que eu almejava há anos. Eu amava Letras. Toda vez que via a grade curricular meu coração dava um salto.


Chorei por semanas. Meu cabelo começou a cair muito, perdi peso, e comecei a ter uma série de complicações de saúde... Eu só conseguia me culpar e imaginar o que faria da minha vida agora que eu tinha “perdido um ano”. Como iria ficar em casa me preparando para mais um vestibular sozinha? Se tendo aula com vários professores eu fracassara, como conseguiria alcançar meu objetivo estudando sozinha?


Foto do interior do livro "A matemática das relações humanas".

Meus pais se deram conta do quão abalada fiquei e, apesar de estarmos passando por dificuldades financeiras (eles eram autônomos, ou seja não tinham renda fixa), fizeram um esforço para pagar mais um ano de cursinho para mim. Não iria ser na mesma instituição, e sim em uma mais barata, mas para mim estava ótimo. Iria me esforçar “de verdade” naquele ano a fim de passar na tão sonhada faculdade.


Nos primeiros dias de aula no novo cursinho eu já me encantei pela minha nova professora de Gramática. O nome dela era Pamela, mais conhecida como Professora Pamba. Ela era jovem, engraçada e praticamente tudo o que eu queria ser quando crescesse. Imediatamente grudei nela igual a carrapato.


A Pamela sabia que eu também queria fazer Letras e começou a conversar comigo a respeito da sua formação. Contou que era formada pela Mackenzie, mas também tinha feito parte do curso na USP e depois outros cursos na PUC. Ou seja, ela tinha passado pelas três faculdades em que o curso de Letras era referência em São Paulo, sendo que a sua favorita, como ela mesmo dissera, era a Mackenzie.


Por conta das suas histórias, fiquei desejando um sonho impossível que seria estudar na Mackenzie que, pelo o que ela me dizia, parecia oferecer um curso muito bom, do jeitinho que eu sempre sonhara. Além da grade regular, a universidade oferecia uma extensão com matérias relacionadas à produção editorial, que também era uma dos meus sonhos de carreira. Mas, além de ser outra universidade bastante concorrida, mesmo que eu passasse no vestibular, eu não iria ter como pagar as mensalidades. Então, segui com os planos de conseguir passar na USP.


Acho que mais ou menos em março daquele ano, meu professor de Física informou que o Prouni (Programa Universidade Para Todos) tinha aberto as inscrições para quem havia realizado o ENEM no ano anterior e quisesse entrar na faculdade no meio daquele ano. Esse programa oferece bolsas em universidades particulares de todo o país, e usa como meio de avaliação a sua nota no ENEM. No ano anterior eu tinha descartado a ideia de usar minha nota no Prouni e no Sisu (Sistema de Seleção Unificada) porque estava muito focada em passar na USP e o único caminho para entrar nela na época era a Fuvest e nada mais. Porém, depois de ter conversado com a Pamela, decidi checar se o Mackenzie estava oferecendo bolsas integrais para o curso de Letras. E estavam. 14, apenas.


Me inscrevi, então, com a nota de um ENEM que eu tinha feito apenas para treinar para a Fuvest. Decidi não contar para ninguém além da minha mãe. Se eu não tinha passado num processo seletivo com mais de 600 vagas, como iria passar em um com 14? Ainda mais tendo feito a prova bem despreocupadamente? Mas a vida é muito doida, né? Não sei se você já notou isso... Eu acabei passando. Fui uma das 14 pessoas. Ganhei uma bolsa integral, em uma universidade em que curso é muito bem conceituado e onde eu vivi alguns dos melhores anos da minha vida.



Nesse novo cursinho eu fiquei apenas 4 meses, nem prestei nenhum outro vestibular, mas saí de lá com uma amiga para a vida toda, a Pamela, que inclusive me acompanhou quando eu fui fazer a minha primeira tatuagem! Do primeiro cursinho, saí de lá com o conhecimento que me garantiu a minha bolsa da faculdade, bons amigos e alguns ensinamentos muito válidos para a vida universitária, como por exemplo: quando você quer ir ao banheiro no meio da aula da faculdade, você não precisa pedir ao professor, é só levantar e sair. E também quando você chega atrasado, não precisa pedir permissão, é só entrar e assistir o que ainda resta de aula. Parece bobo, mas quando eu tinha 17 anos eu me sentia muito dona do meu próprio nariz quando fazia isso.


Hoje, aos 24, sou formada, trabalho, tenho a minha própria editora, continuo estudando sem parar... ou seja, deu tudo certo. Sigo minha carreira muito bem, e o episódio assombroso da minha primeira tentativa frustrada de passar na faculdade hoje é só uma lembrança. Costumo ser cética, mas esse episódio específico da minha vida me faz acreditar em frases como “tudo tem seu tempo certo”.


Quando idealizei essa antologia de contos, meu objetivo era que ela se tornasse o tipo de livro que eu, aos 17 anos com os cabelos caindo aos montes por tanta tristeza, precisava ter, mas infelizmente não tive. Aimee Oliveira, Bruna Ceotto, Bruna Fontes e Clara Savelli foram escolhidas a dedo e convidadas para criar personagens que traduzissem o turbilhão de sentimentos (bons e ruins) que envolvem o ano do vestibular. E, posso adiantar? Elas conseguiram fazer isso muito bem. Quem já conhece e acompanha o trabalho de uma ou de todas essas autoras sabe que a qualidade de escrita delas é inquestionável.


Se você já foi, é ou será um vestibulando, com certeza irá se identificar com muitos dos dilemas, alegrias e tristezas presentes nas histórias deste livro. Se você irá prestar vestibular ainda, espero que através dessas histórias ficcionais e da minha história real contada nesse texto introdutório você consiga passar por essa fase da melhor maneira possível, e encontrar seu próprio caminho assim como eu encontrei o meu, seja ele dentro ou fora de uma universidade.


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